Escrito por Leonardo Schwinden
“Houve um tempo em que a Igreja era o horizonte que unificava a vida, fornecendo a gramática moral e o propósito que hoje evaporaram. A unidade, fundamental para a sobrevivência de qualquer civilização, era o nosso estado natural.”
A cada dia fica mais evidente que a disputa entre os Estados Unidos e a China é um choque profundo entre duas formas de organizar a existência. De um lado, o modelo chinês: uma máquina de coesão que compreendeu que a unidade é o alicerce de qualquer projeto histórico. Lá, a “ideologia comum” não é um acessório, mas o motor do Estado, provando-se na estabilidade e na força com que o país se projeta no século XXI.
Do outro lado, observamos o Ocidente liderado por uns Estados Unidos em crise de identidade. O que vemos é o espetáculo da fragmentação. Uma sociedade que já não concorda sobre valores fundamentais ou sobre a própria verdade. Sem um solo comum, a política americana transformou-se em uma guerra civil fria, onde o “outro” é um inimigo existencial.
Essa constatação traz uma nostalgia inevitável da Cristandade. Houve um tempo em que a Igreja era o horizonte que unificava a vida, fornecendo a gramática moral e o propósito que hoje evaporaram. A unidade, fundamental para a sobrevivência de qualquer civilização, era o nosso estado natural.
Diante disso, buscam-se saídas. Rod Dreher, em sua obra “A Opção Beneditina”, propõe um recuo para comunidades fechadas para preservar a fé e a ordem. No entanto, sou forçado a um realismo melancólico: essa saída é, hoje, impraticável. Não há “mosteiros” isolados em um mundo onde a tecnologia atravessa paredes e os algoritmos moldam a alma de nossos filhos. O sistema atual não permite o exílio; ele exige a rendição ou a dissolução.
A conclusão a que chego é um tanto difícil. A menos que Nosso Senhor resolva intervir diretamente na história, ou que seja outra a Sua Vontade, parece-nos que estamos destinados a aceitar este mundo permanentemente fragmentado. É o reconhecimento de que o nosso tempo é o do conflito e da solidão ideológica.
Viveremos no sistema, mas sem pertencer a ele, guardando a unidade como uma chama trêmula no íntimo da consciência e da família. Pois se hoje a ordem nos é negada na praça pública, resta-nos a paz de quem compreendeu as palavras de Cristo: “O meu Reino não é deste mundo”.
Leonardo Schwinden é doutor em filosofia e professor.

